Pesquisa Rápida na Edição de Hoje
Veja a Primeira Página do Jornal
SECÇÕES
1ª Página
Destaque
Política
Internacional
Espaço Público
Sociedade
Cultura
Desporto
Economia
Media
Local Lisboa
Local Porto
Última Página
Ficha Técnica
SUPLEMENTOS
Pública
SÓ TEXTO
Previsão meteorológica
Calvin & Hobbes Bartoon
Programação TV
Cinecartaz

 

.
Calvin & Hobbes
PesquisasÚltimos 7 DiasÍndice de HojePrimeira PáginaHOMEHome|Primeira Página|Índice de Hoje|Últimos 7 Dias|Pesquisas
SociedadeArtigos
 

Os Génios do Cristianismo - 9
O Papa e o Eremita Vão para a Guerra Santa

Por HENRI TINCQ
Segunda-feira, 9 de Agosto de 1999

Segundo a lenda, Cristo teria ordenado ao eremita Pedro que convencesse o papa a reconquistar a Terra Santa. A cruz e o crescente confrontam-se. Início de um longo conflito entre o Ocidente e o Islão.

FotoA cena passa-se numa fortaleza franca perto de Tripoli, na Síria. Um médico acode a um cavaleiro padecendo de um abcesso na perna e a uma mulher atingida por um desgosto que a consome. "'O que é que preferes', pergunta ele ao cavaleiro, 'viver com uma perna ou morrer com as duas?' O outro responde-lhe que prefere viver. O médico diz então que precisa de outro cavaleiro, robusto, e de um machado que corte bem. Eu assistia à cena: o nosso homem instala a perna do seu paciente em cima de um cepo e ordena ao cavaleiro que a corte de um só golpe. Mas ao primeiro golpe a perna resiste; ao segundo, carne e ossos espalham-se um pouco por todo o lado, e o doente morre em seguida.

"Sem hesitar um momento que seja, o médico vira-se agora para a mulher, analisa o seu caso: trata-se de um demónio que ela tem na cabeça. É preciso cortar-lhe o cabelo. A mulher não fica nem melhor nem pior, mas começa a comer, como os francos costumam fazer, alho e mostarda. O seu estado agrava-se. O outro declara, peremptório, que o demónio não habita à superfície da cabeça, mas mais profundamente do que ele tinha primeiro pensado. Mune-se de uma navalha e faz, directamente no crânio, uma incisão em forma de cruz, de tal maneira terrível que o osso aparece. Depois, tapa tudo com sal... e eis, quase logo a seguir, a sua segunda morte."

O autor deste relato é Usama Ibn Mounquid. André Miquel e Amin Maalouf chamam-lhe simplesmente Usama, príncipe de Chaysar, na Síria. Ele nasce no mesmo ano - 1095 - em que o papa Urbano II prega, em Clermont, pela primeira cruzada e morre em 1188, ou seja, um ano depois da reconquista de Jerusalém aos francos pelo seu herói preferido, Saladino. O seu livro, o "I'tibar" ("A Experiência"), não é o discurso de um chefe de guerra, mas o de um observador, escrupuloso e distinto, dos estranhos usos e costumes cristãos. O seu testemunho sobre a medicina empírica - e expeditiva - dos cruzados é um monumento. Ele mostra o fosso que separa os "bárbaros" vindos do Ocidente e uma civilização muçulmana então no seu apogeu.

A 11 de Dezembro de 1098, o exército das cruzadas chega a Maara, igualmente na Síria, a três dias de marcha de Antioquia. Bohémond, o chefe franco, promete poupar a vida aos habitantes se eles deixarem de combater. Tremendo, a população confia, abandonando os locais mais elevados da cidade onde se tinha refugiado e escondendo-se nos subterrâneos. Mas a promessa de Bohémond não passa de um logro. Ao amanhecer, os francos forçam as portas de Maara e é a carnificina. Durante três dias, homens, mulheres, crianças e velhos são passados pelas espadas. O cronista franco Raul de Caen acrescenta este episódio menos banal: "Os nossos coziam os pagãos adultos em caldeirões, empalavam depois as crianças em espetos e devoravam-nas grelhadas." Uma outra testemunha, Alberto de Aix, confirma: "Os nossos não tinham qualquer repugnância em comer não apenas os turcos e sarracenos mortos, mas também os cães."

Assim sendo, os cruzados eram canibais. Canibais por necessidade ou por fanatismo? Para Amin Maalouf, não há qualquer dúvida na resposta. Autor, em 1983, da obra "As Cruzadas Vistas pelos Árabes", o escritor franco-libanês conta as expedições punitivas dos francos nos campos da Síria e descreve o seu prazer em "rasgar a carne" dos sarracenos. É à noite, reunidos à volta de uma fogueira, que eles devoram as suas presas. Com a sua elegante pena, Usama, o príncipe cronista, comenta: "Todos os que recolheram informações sobre os francos viram neles animais selvagens que têm a superioridade da coragem e do ardor no combate, mas nenhuma outra, tal como os animais têm a superioridade da força e da agressão."

Para os muçulmanos, a barbárie está no campo que defrontam: o da cristandade e do Ocidente. A conquista de Antioquia (1098), a de Jerusalém (1099) pelos francos são, para eles, cataclismos. Como o testemunha este outro relato de Maalouf. Depois de três semanas de marcha sob um sol de chumbo, o venerável cádi de Damasco desembarca no califado de Bagdad, informando o califa sobre os acontecimentos e suplicando-lhe que intervenha, em nome da solidariedade muçulmana. "Como vos atreveis a dormir", pergunta ele, "enquanto os vossos irmãos na Síria não têm por morada senão as selas dos camelos ou as entranhas dos abutres? Quanto sangue derramado! Quantas jovens tiveram, com vergonha, de tapar a sua doce face! Os valorosos árabes acomodam-se com a ofensa e os valentes persas aceitam a desonra?"

A Umma [comunidade] muçulmana é humilhada como nunca tinha sido desde a morte do Profeta, havia quatro séculos e meio (632). A Batalha de Jerusalém durou apenas dois dias. A visão dos guerreiros francos, cabelos louros, cobertos de armaduras, degolando pelas ruelas homens, mulheres e crianças, pilhando as casas, saqueando as mesquitas, obcecará por muito tempo os muçulmanos. Os que não puderam escapar à sua fúria, conta um cronista, "jaziam aos milhares em lagos de sangue em redor das mesquitas. Um grande número de imãs, de ulemas e de ascetas sufis tinham deixado os seus países para virem viver uma piedosa reforma nos lugares santos. Os últimos sobreviventes foram obrigados à pior das tarefas: transportar às costas os cadáveres dos seus, deitá-los em terrenos baldios, queimando-os de seguida, antes de serem eles próprios massacrados ou vendidos como escravos" (Amin Maalouf).

A reconquista de Jerusalém pelos cruzados marca o fim de uma idade de ouro que enchia todos os muçulmanos de orgulho e arrogância. Dos Pirenéus ao Indo, o islão era vivido como uma epopeia. O império de Maomé não era o maior, desde Alexandre? Com a reconquista de Espanha e de Portugal, a da Sicília pelos normandos e as cruzadas na Palestina e na Síria, a sua expansão acabou de vez. O "milagre árabe" está ameaçado. Havia muito que a língua do Corão se tinha imposto como língua de cultura. À sombra das cortes principescas - umaíade em Damasco, abássida em Bagdad - em cidades refinadas como Samarcanda, Cairo, Kairuan, Tlemcen ou Granada, tinha-se afirmado um humanismo árabe único no mundo, integrando as tradições persa, grega, indiana e explorando todos os campos do saber.

Acima de tudo, a filosofia, com um Ghazali (1058-1111) e um Averróis (1126-1198), que não é o ímpio descrito pela Idade Média cristã, mas o homem de um regresso à fonte do Corão, em face das tendências fundamentalistas que ameaçam já o islão. Com as suas mesquitas, como a Cúpula do Rochedo, em Jerusalém, os seus palácios, as suas fortalezas, a sua universidade Al Azhar, do Cairo, a arquitectura árabe é também uma das pioneiras. Na medicina e na ciência - química, álgebra, astronomia, matemática, física -, os árabes, os persas, os afegãos têm um grande avanço. O islão, que abraça as nações e as raças, encarna a promessa de um mundo novo, jovem, aberto ao Mediterrâneo, mas também às profundezas da Ásia e do Extremo Oriente.

Assim, no século XI, o primeiro das Cruzadas, a bússola do mundo parece por muito tempo paralisada: no Oriente, o humanismo e a civilização, cujo monopólio os árabes partilham com Bizâncio; no Ocidente, as guerras feudais que entretêm "os príncipes da Terra" (Foucher de Chartres) e suscitam, em toda a cristandade, desordens e violências. Acrescentemos o argumento da religião: o islão é a última Revelação, a que recapitula todas as outras. Se os judeus e os cristãos são igualmente depositários das escrituras sagradas, elas foram alteradas pelas suas mãos. O islão é a única versão autêntica e definitiva. O seu direito, que protege os não-muçulmanos (com o estatuto de "dhimmis"), é igualmente sagrado e intangível, dada a sua origem divina.

Imbuídos de um tal sentimento de superioridade, como é que fiéis da qualidade de um príncipe Usama não haviam de ver nos cruzados, com a sua brutalidade guerreira e os seus usos e costumes rudimentares, apesar da nobreza das suas ordens de cavalaria e templárias, os herdeiros dos bárbaros, vindos em hordas do Ocidente para saquear os mundos de refinamento, competência e tolerância? Como não teriam já eles interpretado este acontecimento das cruzadas como um confronto entre guerra santa e "jihad" a que, dez séculos mais tarde, chamaríamos "choque de civilizações"?

Quando Urbano II, um papa francês que foi monge de Cluny, lança, a 27 de Novembro de 1095, durante uma ronda missionária no Sul do seu país, o apelo a uma cruzada armada, a surpresa é total. Ele escolheu, para anunciar este acontecimento, o concílio de bispos que no mesmo momento se reunia em Clermont para tratar de assuntos relacionados com a disciplina eclesiástica e regular a excomunhão do rei de França, Filipe I, pela sua ligação adúltera com Bertrande de Montfort. O imperador de Constantinopla acaba de pedir reforços armados para responder aos turcos que, em 1085, conquistaram Antioquia e estão acampados às portas do império bizantino. Ao mesmo tempo, os peregrinos cristãos de regresso da Terra Santa vêm cheios de relatos de perseguições e pilhagens. Daí até se imaginar um tal cenário de guerra santa...

De uma cajadada, Urbano II mata dois coelhos: socorrendo os seus correligionários do Oriente, retoma a liderança de uma cristandade dividida desde o cisma de 1054 entre Roma e Constantinopla. Fixando como objectivo a reconquista de Jerusalém, nas mãos dos muçulmanos desde 638, ele conta refazer a unidade dos seus príncipes e barões feudais, empenhando-os numa mesma guerra contra os infiéis. Não falta a Urbano II talento político e comunicacional. Não é o papa que convoca esta cruzada, é o próprio Deus. "Cristo vo-lo ordena", insiste várias vezes. Encarrega o bispo de Puy, Ademar de Monteil, de conduzir a expedição como seu legado. É contra o inimigo muçulmano caricaturado, diabolizado - os "infiéis", os "bárbaros" -, que ele incita à partida para combate nas suas próprias terras. "Que vergonha", invectiva ele, "se um povo tão desprezível, tão degradado, escravo dos demónios, triunfa sobre uma nação que se honra de se chamar cristã!"

"É a vontade de Deus", respondem os cavaleiros, a quem se dirige o apelo do papa em Clermont. Urbano II não ignora o fervor deles pelas peregrinações, a necessidade que têm de sossegar uma consciência alterada pela cupidez e violência. Receiam que a porta da Terra Santa se lhes feche para sempre. São ricos, estão bem equipados, são peritos no manuseamento das armas, são acompanhados pelos seus senhores, de cujo empenhamento nos ideais cristãos e na vontade de morrer por eles o papa não duvida. Os "cavaleiros de Cristo" vêem garantida a protecção de todos os seus bens, sob controlo episcopal enquanto durar a expedição, e - suprema recompensa - a remissão de todos os seus pecados e a promessa do paraíso se morrerem mártires às mãos do infiel.

Mas o primeiro "exército" que é organizado - vindo do Leste de França, da Renânia, da Provença, da Aquitânia, da Bretanha, da Borgonha, mas também da Lombardia e da Europa Central - recolhe camponeses, artesãos, pequenos nobres em desgraça ou sem fortuna. Entre eles, pedintes, acompanhados de uma caterva de mulheres e crianças, fanatizados por pregadores itinerantes, eremitas ou penitentes. São acompanhados por padres ou monges exaltados, em ruptura de voto, e por uma boa dose de ladrões, de bandidos e assaltantes de estrada. Numa atmosfera de grande confusão, alegre e entusiasta, uma cruzada "popular" põe-se em marcha, sem qualquer plano de acção, sem missão bem definida, sem organização, sem um comando que não seja o de chefes de ocasião, de marginais, de aventureiros iluminados, cujos nomes são, só por si, autênticos programas, verdadeiras bandeiras: Pedro, o Eremita, Gauthier sem Haveres, Guilherme, o Camerlengo, ou Gouttshalc - para Oriente.

Uma personagem, este Pedro, o Eremita. Tal como um Godofredo de Bulhão, futuro rei de Jerusalém, ele é uma das vedetas desta primeira cruzada. Guilherme de Tiro descreve-o como uma pequena figura, insignificante, mas "com coração grande, clareza de espírito, de bom entendimento e falando muito bem". Nascido em meados do século em Amiens, leva, montada na sua mula, uma vida de errância e de solidão, coberto, dos pés nus até à cabeça, por uma túnica de lã e por uma capa de peregrino, com capuz. Alimenta-se apenas de pão e peixe, distribui aos pobres a esmola recebida pelas suas pregações, perdoa aos pecadores, reconduz à "honestidade" as prostitutas e põe de bem as famílias desavindas. Com palavras simples, deixa por onde passa um rasto de homens e mulheres com cruzes milagrosas. "Tudo o que ele dizia e fazia tinha qualquer coisa de misterioso e de divino e, como tal, chegavam a arrancar pêlos da sua mula para delas fazerem relíquias", conta Guibert de Nogent.

Peregrino em Jerusalém, o eremita Pedro, adormecido na Igreja do Santo Sepulcro, terá escutado, em sonhos, Cristo a ordenar-lhe que se dirigisse a Roma, para convencer o papa a reconquistar a Terra Santa. A partir dessa lenda, os cronistas vão fazer de Pedro o verdadeiro inspirador das Cruzadas. A história, mais tarde, restabeleceu a verdade e fez justiça ao papa de Clermont. Tenha sido ele quem fosse, Pedro, o Eremita é um dos primeiros a atrever-se pelas rotas do Oriente. Seguido de "tropas" calculadas em 15 mil homens e mulheres (os cronistas da Idade Média eram mais generosos), ele é a guarda avançada do exército dos barões e chega, a 1 de Agosto de 1096, junto dos muros de Constantinopla. A própria filha do imperador bizantino Alexis I, Ana Comena, que tem um gostinho pela escrita, descreve Pedro, o Louco - é esse o nome que os gregos dão a Pedro - e os seus amigos "inflamados como que por um fogo sagrado. (...) O seu número ultrapassava o dos grãos de areia à beira-mar e as estrelas do céu".

Esta cruzada "popular" acaba em sangue. Os fiéis de Pedro, o Eremita, caem numa emboscada, em Outubro de 1096, no campo de Civitot, na estrada para Niceia, e são dizimados pelos turcos.

Gauthier sem Haveres morre. Pedro foge, junta-se a Godofredo de Bulhão e participa na última batalha pela "libertação" de Jerusalém. No regresso, vai fundar nas margens do Mosa o Mosteiro de Huy (perto de Liège), onde morre em 1115. Mas, na exaltação dos primeiros tempos de cruzada, esquecer-se-ão as patifarias e as pilhagens que acompanharam o caminho desta primeira vaga popular. Sob as ordens de chefes como Emich de Flonheim, em particular, os judeus foram massacrados como "inimigos de Cristo" em Mogúncia, Colónia, Metz. Não são Pedro e o seu bando de maltrapilhos, os que antes das vitórias militares dos Raymond de Saint-Gilles, dos Bohémond e Godofredos de Bulhão tinham associado a cruzada ao espírito de penitência e pobreza, quem ficará com os louros.

* exclusivo PÚBLICO/"Le Monde"

Amanhã: Uma guerra santa que ainda continua Topo de Página