Os Génios do Cristianismo - 10 Uma Guerra Que Ainda Continua
Por HENRI TINCQ
Terça-feira, 10 de Agosto de 1999
A diabolização mútua entre o islão e a cristandade, remontando à Reconquista e às Cruzadas, reaparece, desde então, com mais ou menos força na História. O desconhecimento dos dois mundos opostos permanece e as guerras santas antigas "justificam" as modernas. O choque de civilizações do século XXI é inevitável?
Já muito se escreveu sobre a pressão demográfica, as más colheitas, a necessidade de aventura e de ouro como as razões que empurraram os cruzados para as rotas do Oriente. Mas a cruzada é também uma mobilização dos pobres que não têm outro futuro senão a vida eterna. Foram os primeiros a partir porque não tinham nada a perder. O século XI é um dos piores da História. Os anos de fome, de seca ou de inundação, de calamidades e de desventuras. Nas suas erupções brutais, o "mal dos ardentes" - essa doença misteriosa de origem mal definida, aparentada com uma espécie de gangrena que invade o corpo e o queima pouco a pouco - aterroriza e dizima os campos. São os países mais devastados e atacados por este mal identificado como um castigo divino - nas fronteiras do Reno, na França Oriental ou na Europa Central - que fornecerão o grosso das primeiras tropas das Cruzadas.
Para estes desvalidos da sorte, atormentados pela obsessão de salvação, Jerusalém é o sonho mítico, o porto de chegada messiânico. Guibert de Nogent conta como as crianças da primeira cruzada, entrando nas cidades e vilas, batem à porta dos castelos, estendendo frouxamente a mão e perguntando se Jerusalém era "já ali". No inconsciente colectivo, a Terra Santa polariza os "medos" e as aspirações do ano 1000. É de Jerusalém que vem "a boa nova" do Evangelho e todo um património de imagens, de lendas, de orações de santidade e de cura. Jerusalém é um dos últimos traços de união entre cristãos do Ocidente e do Oriente, separados por séculos de controvérsia. É a terra sagrada que os peregrinos enchem há sete séculos, sem descontinuidade, apesar das guerras, das invasões, das epidemias e das calamidades.
A tradição da peregrinação nunca fora tão viva. Seguindo os passos de São Tiago, em Compostela, ou de São Pedro, em Roma, mais modestamente de Santa Madalena em Vézelay, da Virgem em Puy ou de São João em Angély, inclinam-se em penitências e devoções. Os primeiros caminhos na Europa, as basílicas surgidas nas cidades-encruzilhada, são os dos peregrinos de todos os países, de todas as idades e de todas as condições. Jerusalém é "a capital". É lá que o noviço, se pode, vai tomar os hábitos monásticos ou que, à imagem de Jesus e de São João Baptista, o peregrino mergulha e se purifica nas águas do Jordão, antes de se dirigir ao Santo Sepulcro, onde, segundo a tradição, o Cristo morto foi embalsamado e depositado. Aí, ele revive as estações da Paixão, disputa uma participação na glória dos eleitos no dia do Juízo Final.
Com a cruzada, a "peregrinação" é militar, mas o espírito é o mesmo: o cumprimento de um sacrifício. Morrer nos locais santos é um motivo de orgulho para o militar que quer ser perdoado por ter morto um inimigo, para o enfermo em busca de uma derradeira oportunidade. Os "pobres" da primeira cruzada partiram para Jerusalém sem bilhete de regresso. Que destino mais belo se pode imaginar do que o de morrer de arma na mão contra os pagãos ou os infiéis, esperando, no local exacto da glória divina, a promessa da ressurreição! Daí a grande popularidade do compromisso assumido pelo papa de que os cruzados mortos na Terra Santa seriam lavados de todos os pecados. O sangue vertido contra os turcos torna-se mártir e há a promessa da salvação eterna.
Nesta atmosfera de exaltação, o menor sinal ou prodígio assume significado. O da cruz, aparecido num manto ou num uniforme, rasgado na própria carne. O das chuvas de estrelas, que dão no céu o sinal de partida das expedições. Da figura de Estêvão, o primeiro dos mártires em Jerusalém. Do apóstolo André, que aparece aos cruzados para anunciar o regresso de Cristo. Santo André, que revela a um camponês vindo da Provença, de nome Pedro Bartolomeu, o local onde está escondida em Antioquia a Santa Lança, relíquia da que trespassou Cristo no Calvário.
As cruzadas seguintes terão menos este carácter de expedição de salvação colectiva. A organização sucede à pia aventura. É a época das ordens hospitalares e das "milícias" do Templo, de que São Bernardo, o fundador de Cister, pregador da segunda cruzada (1147), dirá que aliam "a doçura do monge à coragem do cavaleiro". Falta dizer que, entre a primeira e a segunda cruzada, a vida religiosa da Idade Média mudou. Os eremitas dão o seu lugar aos monges, que fazem voto de estabilidade. Novas formas de vida comunitária nascem nos mosteiros, abadias e catedrais, que surgem da terra como "orações petrificadas". As igrejas e as capelas transformam-se em imensos relicários. É a "cruzada monumental" de que fala Louis Réau.
A leitura que acaba de ser feita das Cruzadas tem mais em conta a psicologia colectiva do que a análise dos dados políticos, económicos ou militares que marcaram a história das oito expedições à Terra Santa. O poder épico das massas populares, o temor escatológico que as mobiliza contra um inimigo mal conhecido e as precipita em direcção à Jerusalém celeste foram postos à luz do dia nos anos 50 por historiadores como Paul Alphandéry e Alphonse Dupront. Uma tal versão do acontecimento explica a construção de dois imaginários simbólicos que nunca mais deixarão de se fecundar - o humanismo da Renascença e a idade de ouro árabe equivalem-se - e de se erguer em dois sistemas de exclusão mútua para erigir, entre o Islão e o Ocidente, mal-entendidos e fricções que duram até hoje.
Os principados e os reinos latinos, onde os "barões" cristãos tentam reconstruir e copiar o modelo feudal, vão cair um a um sob os golpes das suas divisões. A vitória de Saladino em Hattin, em 1187, reabre aos muçulmanos a porta de Jerusalém. Este século de ocupação cristã das terras da Palestina e da Síria vai fazer cair, como o testemunham as obras de Usama e de Maalouf, um sem-número de barreiras e de estereótipos. Pela primeira vez, os muçulmanos vêem a vida dos cristãos de rito latino, e o Ocidente descobre muçulmanos com hábitos e costumes mais policiados, coisa que os seus bispos, príncipes e pregadores não lhes tinham dito nos seus discursos inflamados.
Apesar deste contacto, o islão continua a ser uma realidade desconcertante para o mundo cristão. Apoiado na ignorância: 400 anos depois da morte de Maomé, apesar da presença muçulmana na Sicília e em Espanha, o islão continua praticamente desconhecido na Europa. O primeiro a estudá-lo de perto - para o refutar - será um abade de Cluny, Pedro, o Venerável, que, depois de uma visita ao Sul de Espanha, publica, em 1142, a primeira tradução em latim do Corão. A desconfiança reaparece uma vez mais na Renascença, onde tudo é bom para desqualificar o árabe e o muçulmano. Durante o cerco de Viena pelos turcos (1529), o papa manda queimar exemplares do Corão.
No Concílio de Florença, em 1442, a Igreja reafirma a sua posição mais tradicional e hostil a qualquer sistema religioso concorrente - "Extra ecclesiam nulla salus": "A santa Igreja romana confessa e proclama que fora da Igreja ninguém alcançará a vida eterna, seja pagão, judeu, incréu ou separado da Igreja. Ele será o pasto do fogo eterno destinado ao diabo e aos seus anjos se não se lhe juntar [à Igreja] antes da morte." A Reforma não espalha uma imagem mais famosa do islão. Lutero apelidará o Corão de livro maldito, vergonhoso, prenhe de fábulas, de mentiras e de montanhas de horror.
Desde então, não se deixará de opor um Ocidente das "luzes" a um Oriente supersticioso e tenebroso. Inclusive depois da conquista do Egipto por Bonaparte ou do período entre as duas guerras: os trabalhos históricos de um René Grousset demonstram o fio condutor que liga as Cruzadas, a conquista da Argélia, o desfile de crianças em uniforme de cruzado durante o congresso eucarístico de Cartago (1930) e a expedição franco-inglesa do Suez contra Nasser. A colonização reactivou este par cruzada-"jihad". Encontra-se aí a mesma mobilização de emoções e de nacionalismos, a mesma retórica que, a coberto da civilização, legitima uma agressão e uma ocupação.
Mais recentemente, os conflitos israelo-árabes e a guerra do Golfo reanimam os imaginários religiosos que julgávamos desaparecidos. François Mitterrand qualifica a intervenção dos aliados contra o Iraque de "guerra justa", conceito que foi tratado por Santo Agostinho, enquanto Saddam Hussein exalta, nos discursos e na propaganda, a personagem de Saladino, figura heróica de um Islão mitificado, por ser oposto ao Ocidente e à modernidade. A "cruzada" e a "jihad" tornam-se paradigmas universais. A sacralização de Jerusalém pelo mundo muçulmano não é estranha à recordação da resistência militar e religiosa aos cruzados. E a "guerra santa" em que estão empenhados os militantes islâmicos, no Egipto ou na Argélia, traduz não tanto um recuperar de fé quanto a reacção de um imaginário ainda ferido de morte pelas recordações das cruzadas e das reconquistas.
A cruzada e a "jihad" assentam a sua legitimidade, segundo Mohamed Arkun, nas "teologias de acção armada" que atravessaram toda a história das relações Oriente/Ocidente, as lutas entre o império otomano e a Europa cristã, as guerras de libertação colonial e as violências fundamentalistas. Violência, sagrado e verdade estão frequentemente ligados entre si. Com o regresso de um religioso não refreado, o choque ("clash") de civilizações (como diz Samuel Huntington) poderá assumir, no século XXI, dimensões catastróficas. Como superar a estrutura potencialmente totalitária que é, afinal, toda a verdade religiosa?
* exclusivo PÚBLICO/"Le Monde"
Amanhã: A lenda negra de Torquemada
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